Pra começo de conversa, para quem é esse post?
Resposta: Para quem (assim como eu) tem até uns 4-5 anos de carreira na área de desenvolvimento.

Sobre os rumos da carreira

Acho que é importantíssimo deixar uma coisa bem clara logo de cara: não existe um oráculo que vai aparecer e te dizer qual é o caminho certo pra sua carreira. Nem eu tenho essa resposta e, sinceramente, ninguém tem. E isso não tira nem um pouco o valor desse papo. Pelo contrário.

Se a gente olhar pra como muitas empresas (geralmente) estruturam seus planos de carreira, surge aquele conceito famoso da “carreira em Y”. E o que isso significa? Basicamente, chega um ponto em que você amadureceu tecnicamente, já domina bem os fundamentos, entrega com consistência, resolve pepinos… e então a pergunta vem:

“Beleza… e agora? Eu continuo crescendo como?”

Aí, teoricamente, aparecem os dois caminhos possíveis (dai o Y, sacou?):

🛠️ Caminho técnico: Seguir se aprofundando em engenharia, arquitetura, design de sistemas, escalabilidade, segurança… Ser aquela pessoa que resolve os problemas mais cabeludos, pensa no sistema como um todo, desenha soluções, orienta os times. Aqui estão os cargos como Senior Engineer, Staff, Principal, Distinguished…

🧠 Caminho de liderança: Ir pra um lado mais voltado pra gestão. Cuidar de pessoas, ajudar no desenvolvimento do time, alinhar estratégia, lidar com processos, cultura e impacto organizacional. Aqui entram Engineering Managers, Heads, VPs, CTOs…

Importante dizer: ser líder técnico não é ser gerente de pessoas. Liderança técnica não te tira do código, ela te coloca no código certo, nos problemas certos, no alinhamento técnico entre times e na visão de longo prazo.

E tá tudo bem não saber qual caminho seguir ainda. Inclusive, é muito mais comum do que parece. A real é que, olhando de fora, esses dois caminhos parecem bem definidos. Só que, na prática, eles são bem mais nebulosos, sobrepostos, cheios de nuances e, às vezes, você até transita entre eles sem perceber. Uma coisa que eu fui percebendo nesse processo é que não é uma decisão que você toma de uma vez, do tipo “agora sou isso”. É uma construção. Você vai testando, se expondo a certos tipos de problema, observando no que você se sente mais prazer, mais desafiado, mais útil, mais realizado.

E mesmo que você decida seguir o lado técnico, vai precisar ser uma pessoa que comunica-se bem, que alinha expectativa, que influencia, que negocia, que lidera discussões técnicas, e tudo isso são habilidades muito associadas à liderança.

E se você for pra liderança de pessoas, ainda assim precisa entender de tecnologia, de arquitetura, de boas práticas, porque, se não, você perde a confiança do time. Ninguém quer um gestor que não entende minimamente o jogo que o time tá jogando.

Então, na prática, não é tão preto no branco assim. O que muda é onde você escolhe colocar mais energia, mais foco e mais intenção.

Mas como estar minimamente preparado?

Sendo bem honesto, eu acho que a pergunta certa nem é “como estar 100% preparado”, porque isso provavelmente nunca vai acontecer. A real é que, em algum momento, você simplesmente vai ter que pular. E sim, vai ter insegurança, frio na barriga e aquele pensamento clássico de “será que eu dou conta?”. Mas dá, sim. Confia. Porque preparação não é sobre esperar se sentir pronto. É sobre criar lastro, repertório e casca o suficiente pra saber que, seja lá o que vier, você vai conseguir aprender no processo (perceba que eu falei APRENDER).

Pra mim, tem alguns pilares que acredito fazer diferença nessa fase:

🔧 Dominar os fundamentos

Parece óbvio, mas muita gente ignora. Saber bem engenharia de software, arquitetura, padrões de projeto, modelagem, performance, segurança, debugging… Isso é o básico do básico pra quem quer seguir na trilha técnica, mas também dá base pra quem vai liderar times técnicos.

Como líder técnico de um time, você provavelmente vai querer ser a pessoa menos “técnica” da sala no sentido de não estar mergulhado nas minúcias do código no dia a dia. Mas atenção: isso não significa ser um leigo. Seu trabalho é garantir que o time tenha tudo que precisa pra avançar. E, muitas vezes, esse “tudo” vai ser uma decisão técnica que tá travando o projeto. Vai ter impasse. Vai ter quem defenda A e quem defenda B. E se você não tiver domínio dos fundamentos, se não entender os trade-offs, as consequências, as implicações técnicas, você simplesmente não vai ser um bom líder pra esse time.

E o time vai perceber. Porque liderança técnica não se sustenta só na base do carisma, do alinhamento e da facilitação. Se sustenta, principalmente, na sua capacidade de olhar pro problema, entender tecnicamente o que tá acontecendo e ajudar o time a tomar boas decisões.

🧠 Aprender a pensar além do código

Se perguntar constantemente: “Por que eu estou construindo isso?” e não só “como eu construo isso?”. Entender produto, negócio, as dores reais dos usuários, como a empresa ganha dinheiro, como o seu trabalho gera impacto. Isso te coloca em outro patamar, seja como engenheiro ou como líder.

🗣️ Comunicação é jogo de carreira

Saber se comunicar bem é diferencial. E não estou falando de fazer uma palestra. É sobre conseguir explicar uma ideia, defender uma proposta, alinhar expectativas, dar e receber feedback, e, principalmente, fazer isso sem soar arrogante nem passivo demais. É saber traduzir uma mesma ideia para diferentes públicos, é conseguir vendê-la para os stakeholders e defendê-la em um board técnico.

🤝 Construir relações

Se cercar de gente boa, puxar conversa com quem tá alguns passos na sua frente, perguntar como foi o caminho deles. Isso vale ouro. Porque, no fim das contas, ninguém cresce sozinho. Com toda certeza a empresa que você trabalha tem um canal, ou um fórum, ou whatever (e se não tiver, é a sua oportunidade de tomar a liderança e implementar) que outros engenheiros usam para compartilhar side projects, observações, papers potenciais, etc. Use esses canais para envolver-se com outras pessoas que também estão buscando esse próximo passo. Visibilidade é tudo.

Desafie-se

Um dos momentos de maior marasmo da minha carreira foi justamente quando eu entrei em uma zona de conforto na qual eu pegava meu ticket, fechava a tarefa e é isso. Fácil? sim, ganhava o meu salário do mesmo jeito? Com certeza.

Só que, sem perceber, a vontade/paixão/tesão/realização (chame como quiser) começou a minguar miseravelmente.
Porque é isso que acontece quando você opera só no modo “executar tarefa”. Você não cresce. Você não aprende. Você não se sente desafiado. E, aos poucos, você começa a se sentir pra trás.

E aí vem a parte difícil: sair dessa zona de conforto não é automático. Não é natural. Dá trabalho. Dá preguiça. Mas, se você não fizer isso, te garanto… uma hora a conta chega. Seja na forma de tédio, seja na forma de burnout, ou na forma de “você foi substituído por uma IA”. Sei lá.

Então o que eu fiz para sair desse ciclo foi: primeiramente conversei com minha gerente direta e demonstrei interesse em trabalhar em outras partes do produto, que achava que eu ainda poderia aprender e contribuir mais. Peguei um uma feature do zero para fazer, do design a liderar implementação, a fazer treinamento para o time suporte.

Aí veio essa onda de GenAI, todo mundo meio perdido, todo mundo tentando entender o que fazer com isso. O que eu fiz? Aproveitei que era terreno novo, sem dono, e fui estudar, testar, brincar, quebrar coisa. De repente… pum: virei referência no assunto dentro do time. Comecei a resolver dores que existiam há anos, coisas que ninguém gostava de mexer.

E isso me mostrou uma coisa: às vezes, o desafio que você procura não tá no cargo, nem no título, nem no time. Tá na sua disposição de se movimentar, de se colocar no jogo, de se tornar útil em problemas que ninguém tá olhando.

Até agora tem funcionado bem.

In a nutshell

carreira pra lá, carreira pra cá, mas e aí? Qual a call?

Em resumo: Depende.

Brincadeira hehe

Embora nada esteja escrito em pedra, você precisa ter um plano de carreira. E lembre-se, seja egoísta com a sua carreira. O plano é seu, não da sua empresa. A empresa que você trabalha hoje tem que estar alinhada ao seu plano, ela tem que ter um papel, a experiência dela está sendo útil para construir a sua carreira.

Portanto, use toda oportunidade que tiver para aprender algo novo no contexto dessa empresa, desse produto. Se possível, tente mover lateralmente, nem precisa ser para outro time, mas para uma feature que você nunca viu. Surgiu uma oportunidade de liderar uma equipe ou feature, agarra! Só assim você vai saber qual dos dois caminhos da bifurcação você se identifica mais (e o que precisa de desenvolvimento).

Era isso. Se quiser trocar uma ideia me chama no Linkedin.
Ah, tem outros artigos aqui no blog, da uma olhada!